A história da Vinícola Aurora, a maior cooperativa de vinho do Brasil, é intrinsecamente ligada à imigração italiana e ao desenvolvimento da viticultura na Serra Gaúcha. Fundada a partir do sonho de famílias italianas que buscavam uma vida melhor no Brasil no início do século passado, a Aurora personifica a resiliência, o trabalho árduo e a dedicação à qualidade. No entanto, nos últimos anos, a cooperativa tem enfrentado desafios significativos, tanto em relação a questões sociais quanto às adversidades climáticas, que testam sua capacidade de adaptação e reafirmam a importância de seus valores fundamentais.

A Colheita e os Desafios Climáticos de 2024
O ano de 2024 apresentou um cenário complexo para a viticultura na Serra Gaúcha. Entre dezembro de 2024 e março deste ano, os cooperados colheram 71,6 milhões de quilos de uva, registrando um aumento de 42,3% em relação ao ano anterior. Contudo, esse aumento quantitativo veio acompanhado de fortes impactos climáticos. O produtor Nacir De Mari, cujas vinhas resistem há quatro gerações em Bento Gonçalves, viu três de seus 10 hectares serem destruídos por deslizamentos após uma forte chuva. A reconstrução demandará cerca de R$ 500.000, um montante significativo para quem faturava R$ 700.000 por safra. Ele e sua família são um exemplo das 1.100 famílias que compõem a Cooperativa Vinícola Aurora e que, apesar dos danos em cerca de 8% das propriedades, não desistiram da viticultura.
O próprio presidente da Aurora, Renê Tonello, foi um dos atingidos pelas chuvas, tendo que se ausentar de seus vinhedos por um mês devido à falta de energia elétrica. Sob sua liderança, os agrônomos da cooperativa formularam mais de quarenta projetos de financiamento para auxiliar na reconstrução das propriedades danificadas. Mesmo cooperados que não sofreram com deslizamentos enfrentaram problemas, resultando em uma quebra de safra significativa. A Aurora, que colheu 70 milhões de quilos de uva no período anterior, viu esse número diminuir para 50 milhões de quilos em 2024. Diante dessa situação, a cooperativa optou por comprar mais insumos no mercado, uma decisão que se mostrou acertada para compensar a quebra. A expectativa é de recuperação da safra em 2025.
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O Caso de Trabalho Análogo à Escravidão e a Resposta da Aurora
Um dos momentos mais dramáticos na história de 94 anos da cooperativa envolveu a descoberta de trabalhadores em condição análoga à escravidão. A operação policial, realizada em 2023, expôs a contratação de mão de obra pela empresa terceirizada Fênix, que atendia grandes nomes da Serra Gaúcha, incluindo Aurora, Garibaldi e Salton. Três pessoas conseguiram escapar do alojamento e denunciaram agressões físicas, jornadas exaustivas e o fornecimento de alimentos estragados.
Os trabalhadores haviam sido contratados pela Fênix Prestação de Serviços e terceirizados para as vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton. Em março de 2023, as vinícolas assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), comprometendo-se a pagar R$ 7 milhões em indenizações aos resgatados e a implementar medidas de fiscalização e conscientização. Renê Tonello, presidente da Cooperativa Aurora, assegura que a implementação das medidas acordadas ocorre sem dificuldades, com auditorias externas e internas realizadas por agrônomos da cooperativa. Ele reconhece a corresponsabilidade da cooperativa, mesmo que o incidente tenha ocorrido com uma terceirizada.
A Aurora, em resposta ao ocorrido, realizou uma série de reuniões com o MPT e intensificou o apoio aos cooperados. Todos os trabalhadores contratados para prestar serviço aos cooperados agora contam com alojamento dentro das propriedades rurais que atendem à regulação, o que permite à organização exercer um controle minucioso sobre as condições de moradia. Rodrigo Arpini, diretor de vendas da cooperativa, afirma que as diretrizes de ESG (Environmental, Social, and Governance) entrarão na próxima versão do estatuto da Aurora. A cooperativa também buscou parcerias com a academia para adaptar o mapeamento de emissões de carbono ao escopo 3, incluindo os cooperados.

Sustentabilidade e ESG: Um Compromisso em Evolução
A Aurora tem demonstrado um compromisso crescente com a sustentabilidade e as práticas ESG. Há cinco anos, a cooperativa aderiu ao mercado livre de energia, tornando sua matriz elétrica totalmente renovável e evitando o lançamento de 1,3 milhão de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera desde então. Em novembro de 2023, uma consultoria especializada em ESG foi acionada para auxiliar na modernização do negócio.
Atualmente, a Aurora está mapeando suas emissões de carbono referentes aos escopos 1 e 2, com planos de expandir essa análise para o escopo 3, que abrange os mais de 1.000 produtores associados, através de parcerias acadêmicas. Essa iniciativa, embora motivada em parte pela crise social, reflete uma tendência global de maior responsabilidade corporativa. Outras vinícolas também estão investindo em sustentabilidade: a Zanlorenzi reduziu suas emissões de CO2 em 80% nos últimos cinco anos ao trocar combustível fóssil por biomassa, e o chileno Concha y Toro afirma ter reduzido suas emissões em 30% na última década.
Perspectivas Futuras: Crescimento e Desafios de Mercado
Apesar dos desafios recentes, o futuro da Aurora é projetado com otimismo. O faturamento da cooperativa, que foi de R$ 841 milhões no ano passado, tem projeção de alcançar a marca de um bilhão de reais pela primeira vez em 2026. A Aurora também intensificou o apoio aos cooperados na implementação de técnicas de modernização agrícola, e sua sede em Bento Gonçalves tem recebido um fluxo expressivo de visitantes, com expectativa de superar os números de 2023. A discussão sobre a implementação de um aeroporto internacional em Caxias do Sul é vista com otimismo, pois pode atrair mais visitantes para a região.
No entanto, o setor vitivinícola brasileiro também enfrenta desafios de mercado. O acordo Mercosul-União Europeia, segundo Renê Tonello, trará uma concorrência interna ainda mais acirrada com a entrada de vinhos franceses e italianos. A imigração italiana, que completa 150 anos, historicamente se baseava em acordos verbais entre produtores para períodos de colheita mais curtos. Agora, a dinâmica do mercado exige uma profissionalização e uma adaptação constantes.

Transparência e Reconstrução da Confiança
As vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton, após o incidente de trabalho análogo à escravidão, emitiram notas públicas expressando repúdio às práticas e solidariedade aos trabalhadores vitimados. A Aurora, em uma carta aberta, pediu desculpas sinceras aos trabalhadores e ao povo brasileiro, comprometendo-se a redobrar a atenção ao tema, revisar práticas e tomar todas as garantias para que um episódio como esse não se repita. A Cooperativa Garibaldi encerrou prontamente o contrato com a empresa terceirizada e se colocou à disposição das autoridades. A Salton, por sua vez, informou que está intensificando os controles de contratação e prevendo medidas mais austeras em contratos terceirizados, além de aderir ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
Essas declarações, embora importantes, ressaltam a complexidade da cadeia produtiva e a necessidade de um monitoramento contínuo. A sustentabilidade e a responsabilidade social não são apenas tendências, mas imperativos para a continuidade e a reputação de empresas como a Aurora, que se baseiam em uma história de trabalho e dedicação. A reconstrução da confiança, tanto interna quanto externa, será um processo contínuo, pautado pela transparência e pela implementação efetiva de práticas que honrem os valores fundadores da cooperativa e garantam a dignidade de todos os envolvidos em sua cadeia produtiva. A Aurora, como um pilar da viticultura brasileira, tem a oportunidade de liderar pelo exemplo, demonstrando que a excelência na produção de vinhos pode e deve andar de mãos dadas com o respeito aos direitos humanos e a preservação ambiental.